Meu Amado Ideu
Meu amado Ideu (Parte 01)
O ano era 2054, infelizmente, não consigo lembrar exatamente o mês, minha memória começou a falhar. Ela não envelheceu tão bem, na verdade, acredito que nada em mim. Mas talvez, algo entre agosto e novembro, data que marcou o início da quarta grande pandemia. Com a maioria das indústrias quebradas, apenas as de tecnologia e farmacêutica ainda obtiam lucros razoáveis em meio ao caos do quase segundo bilhão de mortos. Nós não chegamos a ver corpos empilhados, nem um batalhão de corvos e abutres sobrevoando as cidades. Esses clichês “Mad maxianos” não condizem com a realidade do atual sistema de saúde, que passou a ser, também, responsável pelo novo sistema funerário, ambos administrados pelo Estado em parceria com o setor privado, devidamente reforçados pela necessidade.
Aliás, sobre cidades, nossa própria concepção acabou mudando já após o segundo grande surto do CRL-TIN-21-46, quando realmente tornou-se impossível o modelo de convivência padrão de casas próximas, vizinhança, favelas e afins). Aprendemos, a duras penas, que, no fim, o ser humano não pode mais viver de forma tão social, o que contradiz toda a nossa cadeia evolutiva. As grandes metrópoles tornaram-se grandes “interiores” e, as casas desocupadas, separavam por quilômetros um grupo familiar do outro.
Não tem mais ninguém nas ruas, ao menos, não sem equipamentos pesados de proteção como máscaras, roupas impermeáveis dos pés à cabeça, luvas, tudo para evitar o ar, ou qualquer coisa estranha que estivesse presente nele. E, também, nem há motivos para sair, ficou cada vez mais claro com o passar dos anos que, nada além da futilidade movimenta a sociedade e, na ausência de motivos, ou de meios para saciar esses impulsos, as ruas ficaram gradativamente desertas. Enquanto a maioria dos sobreviventes ainda permaneciam “amontoados”, por não ter opção, uma parcela menor da sociedade desfrutava de seus privilégios ao escolher onde e como viveriam os próximos anos, longe de tudo e todos.
Feliz, ou infelizmente, eu me incluo nesse seleto grupo.
Não vivi em tempos de aglomeração para saber, exatamente, como era ter tanta gente próxima de mim. Na verdade, convivi pouco com pessoas que não eram da minha família ou estavam prestando algum tipo de serviço para mim e, essa realidade, deve ser comum a toda minha geração ou ao menos à parcela social em que me encaixo.
Não faço ideia de como ficaram os serviços públicos de educação, se ainda existem ou não, mas não faz a menor diferença para mim ou para os meus dependentes. Existem preocupações bem maiores do que saber somar, ou falar bem português. Temos uma série de ferramentas que podem perfeitamente nos ajudar com essas coisas a qualquer momento. Os problemas reais, as razões pelas quais meu pai, avô e eu perdemos o sono, estão bem longe dessas “futilidades”.
A primeira mutação do TIN-21 trazia, além das complicações respiratórias, febre, enjoos e diarreia, uma peculiar enxaqueca aguda, que lhe rendeu o apelido de matadora de nervos. Já a TIN-21-49, ou simplesmente 21-49 e sua posterior, 21-54, adicionaram sintomas que as colocaram como verdadeiras obras primas da morte, sendo o pior deles a insuficiência renal. As pessoas passaram de ocupantes de respiradores em leitos de UTI, para frequentadores assíduos das máquinas de diálise, um processo evidentemente mais caro, que tornou ainda mais segmentado os grupos da população fadados a morrer ou viver.
Quando falei dos sistemas de saúde e funerário, deveria ter dado maior ênfase ao sistema funerário, já que alguns espaços públicos deram lugar aos cemitérios memoriais. Já o que foi feito pela saúde, em questão de reformas, só a deixou mais cara do que já era, mas não para o Governo já que o povo passou a pagar diretamente pelo SUS com mais de 40% dos seus rendimentos mensais. Ninguém questionou. Não houveram revoltas já que a população estava desesperada. Não era como se tivessem outra opção.
Quando meu avô falava de como eram esses tempos, eu realmente sentia a angústia do que ele passou, não em suas palavras, mas nos olhos trêmulos, avermelhados, na voz errante. Ele pagou os 40%, mesmo sabendo que não usaria. Não sei se por esse senso nobre, pela sua crença cristã, que não herdei nem de longe, por algum acaso do destino, ou simplesmente pelo poder do dinheiro, mesmo durante um período tão difícil, ele não perdeu nenhum membro da família, ao menos não de sangue. Grande parte do sofrimento que ele transmitia ao falar desses tempos, devia-se a perda de seu melhor amigo, o seu Ideomário. Caso você conheça alguma história de amizade bonita, ou tenha visto em um filme hollywoodiano, ela, por melhor e mais melosa que seja, não chega aos pés dessa dupla. Meu avô conheceu ele ainda no berço. Mesmo com as famílias tendo tomado rumos diferentes, financeiramente falando, os garotos foram parceiros a vida toda. Brincaram quando crianças, vadiaram quando moleques, e sofreram quando homens. Mas, diferente do vô Ronny, o seu Ideomário não tinha tantos recursos financeiros, e no período mais difícil, as coisas desandaram muito rápido.
Eles adoeceram juntos, sendo que meu avô ficou doente primeiro, o que provavelmente indica que ele transmitiu não só pro Seu Ideomário, mas pra todo mundo que pegou nas duas famílias. E a lista foi grande, salvo me engano, duas das minhas três tias, meu tio e meu pai, minha avó Marcela também, e toda a família do Seu Ideomário. O contraste cruel veio com os sobreviventes. Da parte de minha família, apenas meu tio Arthur teve complicações mais sérias e precisou de cirurgia de transplante de rim, meu pai passou pelas máquinas de diálise pouquíssimas vezes, inclusive, ele se gabava disso como se fosse uma conquista do seu corpo “atlético”. Mas, quanto a família do amigo do meu avô, eles não tiveram essa mesma sorte. De oito membros, apenas dois sobreviveram e permaneceram, ainda, com sequelas severas, José Flávio, o filho mais novo, e a mãe, dona Camila.
Meu avô ficou internado, entubado, a maioria dos dias em coma induzido já que era a forma mais fácil de passar pelas dores proporcionadas pela doença. Boa parte desse tempo, ele não estava consciente, e acredito que tenha sido melhor assim. Por mais que acordado ele pudesse ter ajudado no tratamento da família do amigo, meu avô não era tão saudável e, talvez, ele mesmo não tivesse sobrevivido. Isso pareceu egoísta, e de fato foi. Mas, esse homem foi muito especial pra mim já que cresci próximo a ele, e, sinceramente, não sei o que teria sido de mim sem aquela força.
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