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Meu Amado Ideu (Parte 2) Eu não estava nem perto de nascer no dia que finalmente acordaram ele do coma induzido. Mas sinto como se tivesse memória clara daquele momento. Absorvi das histórias que vó Marcela contava, ou do meu pai, ou dos meus tios, mas do meu avô, eu nunca ouvi uma palavra sequer sobre esse momento. Pararam a medicação um dia antes, para que ele pudesse acordar naturalmente. No quarto, estava minha família toda, vó e tios, com exceção do tio Arthur. Quando ele abriu os olhos, ainda com o respirador e cercado pelo invólucro de plástico, quase como uma bolha que dividia o local com os demais, ele passou a vista por toda a extensão do que podia enxergar. Reconheceu um por um, e eles foram lhes sorrindo com o olhar, era o que dava pra ver com tanto equipamento preventivo. Com alguma dificuldade, ele sentou na cama, até tentou tirar a máscara do respirador, mas foi impedido pela enfermeira. Depois de se acomodar, a primeira coisa que perguntou foi “E cadê o Arthur?”, que fo...

Serious

  Serious (Parte 01) -Óh lá, mais um anúncio do crônicas, isso é um sinal divino que você tem jogar com a gente. -Sinal divino que eu tenho que gastar 500 dólares num RPG? Só pode estar de zoação. -MMORPG. -Tanto faz, custa caro do mesmo jeito! -Mas é o primeiro em realidade virtual funcional. -Definitivamente isso não tem importância nenhuma pra mim! -500 dólares é até barato, se você parcelar vai sair mais barato que aquele tênis que tu jogou fora depois da festa na casa da Julia. -Era um Jordan man, valia cada dólar. -Ué, lavasse então, era só vômito. -Ela vomitou até dentro do tênis, foi perca total Samuel. -Até hoje não entendi como que isso rolou se vocês nem se falavam. -Não nos falamos até hoje. Nós nos trombamos no corredor, ela caiu, e eu fui junto por que não tava muito equilibrado. Não tinha um Jordan vermelho tamanho 38 então eu comprei um 40 e usei papel higiênico pra forrar. Ela tava bebassa, acho que pensou que era um vaso sanitário ou qualquer coisa assim e blée. -...

Meu Amado Ideu

  Meu amado Ideu (Parte 01) O ano era 2054, infelizmente, não consigo lembrar exatamente o mês, minha memória começou a falhar. Ela não envelheceu tão bem, na verdade, acredito que nada em mim. Mas talvez, algo entre agosto e novembro, data que marcou o início da quarta grande pandemia.  Com a maioria das indústrias quebradas, apenas as de tecnologia e farmacêutica ainda obtiam lucros razoáveis em meio ao caos do quase segundo bilhão de mortos. Nós não chegamos a ver corpos empilhados, nem um batalhão de corvos e abutres sobrevoando as cidades. Esses clichês “Mad maxianos” não condizem com a realidade do atual sistema de saúde, que passou a ser, também, responsável pelo novo sistema funerário, ambos administrados pelo Estado em parceria com o setor privado, devidamente reforçados pela necessidade. Aliás, sobre cidades, nossa própria concepção acabou mudando já após o segundo grande surto do CRL-TIN-21-46, quando realmente tornou-se impossível o modelo de convivência padrão de ...

Uma piada

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  Uma piada Então, me deixa te contar uma piada, tenho certeza que ela ainda é boa. Ela começa mais ou menos assim, um humorista sobe ao palco pela quadragésimo segunda vez. Ele está em cartaz no mesmo teatro, Santo André Saboia, às quartas-feiras, 20:00 horas. Já trocou de open mic mais vezes do que de cuecas, mas, por incrível que pareça, deixa a casa cheia a quase um ano. Ele repassa o mesmo texto todo dia, mas não só todo dia de apresentação, quando não tem show, ele passa do mesmo jeito, de segunda a segunda, ele ensaia. Frente a frente com espelho, ele vai talhando cada trejeito pra deixar o texto ainda mais contundente, pra aproveitar ao máximo cada um dos seus gatilhos cômicos. Quando fala da sua mãe, ele escuta risos, quando fala do bullying que sofreu, ele vê gargalhadas, quando fala de seu fracasso como ser humano, a plateia chega a urrar, a ponto da barriga de cada um doer. O time cômico dele permanece firme, só sua crença que não. Ei, olha, olha lá, ele entrou no palco...

Epifanias

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  Epifanias Homens continuam vivendo mesmo quando perdem tudo? Perdi muitos dias na vida me fazendo essa pergunta. Epifanias, elas chegam a todos, no devido tempo. Um dia percebi que até mesmo pássaros, quando privados de voar, esmorecem, perdem a alegria de outrora. Afinal, como seria provar do céu e ter isso tirado de si, deve ser desesperador, na verdade é desesperador... Minha família sempre foi meu céu, minha paz, meus companheiros de toda hora, mãe, pai, irmãos, tios, primos, avós. Sempre fomos muito unidos, comíamos juntos aos domingos, alternando as casas para nunca ser a mesma coisa. Quintais grandes, mesas fartas, até quando estava frio estávamos, próximo a lareira, biscoitos e chocolate quente nos esperavam. Jovens e felizes, todas as crianças brincavam pelas ruas, até escurecer as vezes, memórias claras e coloridas daquela época remota dão apenas mais apertos no meu peito. Ainda era muito novo para entender o porquê de tudo isso ter acabado, não tinha nem nove anos e do...