Meu Amado Ideu (Parte 2)
Eu não estava nem perto de nascer no dia que finalmente acordaram ele do coma induzido. Mas sinto como se tivesse memória clara daquele momento. Absorvi das histórias que vó Marcela contava, ou do meu pai, ou dos meus tios, mas do meu avô, eu nunca ouvi uma palavra sequer sobre esse momento. Pararam a medicação um dia antes, para que ele pudesse acordar naturalmente. No quarto, estava minha família toda, vó e tios, com exceção do tio Arthur. Quando ele abriu os olhos, ainda com o respirador e cercado pelo invólucro de plástico, quase como uma bolha que dividia o local com os demais, ele passou a vista por toda a extensão do que podia enxergar. Reconheceu um por um, e eles foram lhes sorrindo com o olhar, era o que dava pra ver com tanto equipamento preventivo. Com alguma dificuldade, ele sentou na cama, até tentou tirar a máscara do respirador, mas foi impedido pela enfermeira. Depois de se acomodar, a primeira coisa que perguntou foi “E cadê o Arthur?”, que foi prontamente respondida, explicando que ele precisaria de mais tempo e do transplante. Demonstrando preocupação, mesmo depois da explicação, ele questionou “E o Ideomário? Com ele tá?”.
O silêncio no quarto durou longos e exatos 5 segundos até meu pai dizer que não tinham notícias ainda, mas que assim que tivessem, falariam. Meu pai sempre foi o melhor mentiroso da família. A essa altura, eles já sabiam o que tinha acontecido, mas contar pro velho ali seria muito perigoso. Logo ele que sempre foi muito emocional. Depois da resposta, meu vô foi deitando devagar na cama de novo, pensativo. Minha vó sempre disse que ele sabia que era mentira, mas que tinha esperança que não fosse, e ninguém no mundo conhecia melhor o velho do que ela. Dali a cinco dias, ele pôde voltar para casa. Porém, apenas duas semanas depois de acordar que lhe contaram o destino trágico de seu amigo e família. Eles enrolaram o máximo que puderam.
A forma que ele reagiu de início foi bem típica do meu avô, espremendo pra não chorar. Olho vermelho, tremendo. Mas o que não era típico foi aquela reação durar mais dois meses. Indo para o terceiro mês, minha família adotou algumas providências com tratamento psicológico e antidepressivos. Quando ele parou totalmente de mostrar quaisquer reações aos estímulos, internaram-no em uma clínica especial de reabilitação para ex pacientes ou familiares que perderam alguém durante a pandemia. Nesse ponto, se não me engano, já eram 1,4 ou 1,5 bilhões de mortos em todo o mundo, por conta das pandemias, mas principalmente pela quarta, cujo o tratamento era caro e mesmo assim não garantia a sobrevivência do paciente. Caso o número lhe assuste, afinal, não tem como saber como as coisas estão para você agora, era chocante para quem estava vivendo o momento também, atordoante. Felizmente nasci em um período que as coisas estavam mais controladas.
Disse anteriormente que vários setores da indústria faliram, com exceção da farmacêutica e a de tecnologia, mas faltou explicar o porque. Eu não vou lembrar exatamente o ano, mas acredito que ainda não tinha nascido, então, provavelmente meados de 2058. Nesse ano houve uma grande fusão de empresas, a americana HI corporation, uma empresa gigante de tecnologia, que lidava desde servidores até telefonia, incluindo sinal de rede 5Gca com a Sunwei, maior empresa de fármacos de todo o continente asiático. Algo bem incomum entre empresas de locais distantes e culturas tão distintas, mas que foi justificado aos poucos, uma vez que todas as empresas que não fizeram algum tipo de fusão para se suster, quebraram. Vários serviços tornaram-se insustentáveis, não havia mão de obra barata ou serviços que não custasse mais caros de serem mantidos do que de serem prestados. A economia quebrou de fato. Muitos Estados declararam falência. A soberania de alguns países foram deixadas de lado, pois não havia literalmente mais uma nação para compô-la. Gosto de falar pelo que sei, então tomo como exemplo o que aconteceu com o Brasil, alguns Estados viraram países, mas a maior parte das divisões deu-se por regiões. Algo bem compreensível já que historicamente sempre fomos divididos, ou por cultura, ou temperatura, ou seja lá qual motivo for, mas de fato nunca fomos um só país. Hoje, temos Nordeste unido ao Norte, com exceção da Amazônia, tomada a tempos pelos Novos Estados Unidos da América. O Sudeste, Sul e Centro-Oeste, salvo Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que declararam desvinculação total e são Repúblicas independentes, os demais, são junções macro de Estados, e se configuram como países. Moro oficialmente na República do Rio Grande do Sul, mas estou tão aquém das decisões políticas do meu “país”, que não me dou ao trabalho nem de votar nos referendos estúpidos que o governo propõe, pelo menos isso deixou de ser obrigatório.
A junção das duas empresas de que falei fez nascer a íON, o maior conglomerado de serviços e produtos que o mundo já viu. Quando falo maior, me refiro além de tamanho, principalmente ao enfoque na variedade de coisas que esses caras faziam e fazem. Alguns realmente úteis, como serviços de automação de residências, de transportes particulares (não, até agora não existem carros voadores, e nem existirão), higiêne e mixes de remédios em uma só pílula. Hoje por exemplo, dor de cabeça, estômago, fraqueza ou qualquer coisa que você sinta é curada em 12 minutos com a pílula verde OnsA, ou você recebe seu dinheiro de volta. Caso sinta sintomas mais complexos como sangramentos (coisa comum entre a população atualmente), diarreia e vômitos frequentes, a pílula azul OnsA resolve, e assim sucessivamente até a vermelha, depois de quase uma aquarela completa de variedade de medicamentos que você não faz ideia de com o que é feito, mas ninguém se preocupa mais. Estamos tão preocupados em não morrer, que o resto da população do pós TIN-21-54 tornou-se quase alienada quanto a uma série de coisas, parecemos ter perdido um pouco do senso crítico e viramos quase escravos consumistas da íON, ela nos tem nas mãos.
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