Uma piada
Uma piada
Então, me deixa te contar uma piada, tenho certeza que ela ainda é boa. Ela começa mais ou menos assim, um humorista sobe ao palco pela quadragésimo segunda vez. Ele está em cartaz no mesmo teatro, Santo André Saboia, às quartas-feiras, 20:00 horas. Já trocou de open mic mais vezes do que de cuecas, mas, por incrível que pareça, deixa a casa cheia a quase um ano. Ele repassa o mesmo texto todo dia, mas não só todo dia de apresentação, quando não tem show, ele passa do mesmo jeito, de segunda a segunda, ele ensaia. Frente a frente com espelho, ele vai talhando cada trejeito pra deixar o texto ainda mais contundente, pra aproveitar ao máximo cada um dos seus gatilhos cômicos. Quando fala da sua mãe, ele escuta risos, quando fala do bullying que sofreu, ele vê gargalhadas, quando fala de seu fracasso como ser humano, a plateia chega a urrar, a ponto da barriga de cada um doer. O time cômico dele permanece firme, só sua crença que não.
Ei, olha, olha lá, ele entrou no palco. Hoje tá de terno, mas no começo era uma camisa da adidas, jeans e tênis, diga-se de passagem, tudo da 25 de março. A mudança de look não reflete o quão bem ele está sendo pago, nem tão pouco a mudança interna de seu próprio humor. Na real, ela tem outra conotação. Aquele homem, de uma hora pra outra teve um estalo de realidade, e no seu subconsciente, olha que irônico, ele entendeu que no fim, ele não tem graça alguma. Depois disso, entrar no palco definitivamente parou de lhe dar tesão, ele não quer mais estar lá. Ele não quer dar uma olhada panorâmica de pescoço, vendo do João sentado na primeira mesa com seus filhos e sua bela esposa Michelle, até o Vladimir, ao fundo, bebendo seu drink sem lhe dar quase nada de atenção. Não, essa visão agora lhe dá ânsia. Todos eles sempre acabam rindo nos mesmos pontos, parecem quase programados, mas isso deixou de ser seu mérito, na cabeça dele. Agora, parecem mais espinhos no seu peito. Cada riso, sorriso, gargalhada, ou até mesmo aquele sorrisinho maroto de canto de boca. Tudo lhe dói, lhe incomoda. E se tornou um ciclo cruel, que ele não pode quebrar, ao menos não agora, não na crista da onda, não quando seu show é o mais visto do teatro, não, ele não pode. No fim, é como dizem, o show não pode parar, não importa seu custo. Desistir do emprego fixo meia boca pra viver da comédia foi um risco alto demais pra ter dado certo, e ele simplesmente desistir por não aguentar uma risada a mais.
Olha lá, as mãos dele ao microfone, elas estão suadas, estão tremendo, mas não é de nervoso, é outra coisa. É estado semi-catatônico de medo, pânico profundo, estresse absoluto, que só cessa agora, isso, nesse exato momento em que ele abre a boca e todos os malditos filhas da puta começam a entoar seus cânticos demoníacos de "ha-ha-ha-ha".
Ele deslancha na apresentação apenas por treinar todo dia, não é um “talento natural”, é o seu trabalho. E não é que tudo saiu perfeito? Pelo total domínio ao texto, não pelo seu conforto e capacidade, mas pela dedicação insalubre que ele tem a sua profissão. Ao final do espetáculo, é até doloroso vê-lo tirar fotos com seus fãs. Ele não abre a boca pra dizer um pio, não por não querer, mas sim por não conseguir. As tremedeiras só param aqui no camarim, de frente pra porta que eu acabei de fechar, que sela mais um show finalizado. Eu olho ao redor e não vejo ninguém, não sinto ninguém, principalmente, não escuto mais ninguém, e tenho a paz do silêncio total, e posso finalmente chorar, aos soluços, aos espasmos, ao desespero, sabendo que tenho sete dias até tudo começar de novo.
Eu já tentei mudar de texto, mas não consegui, eles não riram tanto. Já se exauriram as possibilidades pra tentar melhorar a situação muito tempo atrás. Meu psiquiatra disse que só parando com tudo isso pra conseguir me recuperar ou ao menos começar o processo de recuperação, mas, eu não posso. Tenho minhas filhas, minha mãe, minha mulher pra cuidar. Eu simplesmente não posso. Consigo até dormir sexta, sábado, as vezes domingo, dependemos dos remédios que tomo, mas de segunda até quarta é impossível não consigo pregar o olho, viro todos esses dias acordado, minha mente não desliga, ela grita.
Ah, a piada que disse que contaria no começo. Caso ainda não tenha entendido, essa precisa de referências. Mas se você for dos lentos, pra te ajudar, vou parafrasear Bee Gees. Digamos que eu comecei a piada, e só depois entendi que ela era eu. Eu vivi o maior pesadelo do homem, que é ver seu maior prazer se tornar seu maior pesadelo, não desejo isso a ninguém, a não ser que você seja um pedófilo, aí sim eu desejo, desejo que toda noite você sonhe com o tiririca travestido de criança, possuído pelo ritmo ragatanga dançando com a trup do Scooby Doo, gritando “abestadooo” num megafone, enquanto te encarca em cima duma bicicleta do Ben 10. Ô merda, eu fiz de novo, não, por favor não ria disso.

oh piada hein. ¬¬
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