Epifanias
Epifanias
Homens continuam vivendo mesmo quando perdem tudo? Perdi muitos dias na vida me fazendo essa pergunta. Epifanias, elas chegam a todos, no devido tempo. Um dia percebi que até mesmo pássaros, quando privados de voar, esmorecem, perdem a alegria de outrora. Afinal, como seria provar do céu e ter isso tirado de si, deve ser desesperador, na verdade é desesperador...
Minha família sempre foi meu céu, minha paz, meus companheiros de toda hora, mãe, pai, irmãos, tios, primos, avós. Sempre fomos muito unidos, comíamos juntos aos domingos, alternando as casas para nunca ser a mesma coisa. Quintais grandes, mesas fartas, até quando estava frio estávamos, próximo a lareira, biscoitos e chocolate quente nos esperavam. Jovens e felizes, todas as crianças brincavam pelas ruas, até escurecer as vezes, memórias claras e coloridas daquela época remota dão apenas mais apertos no meu peito.
Ainda era muito novo para entender o porquê de tudo isso ter acabado, não tinha nem nove anos e do nada vi meus tios irem embora, levando meus primos. Eles foram os primeiros a sumirem. Depois meus avós, alguns amigos da rua, até que de um por um, todos partiram. Eu, meus irmãos e pais... Brincávamos de esconder toda vez que os carros passavam nas ruas, meu pai dizia que eles nos procuravam, e nós não podíamos perder esse jogo.
Hoje sei quem eram e o que queriam. E não, o pior do Führer de fato não foram os campos de concentração, eu sou a prova disso, minhas cicatrizes, minha dor só constatam o quanto aquele homem era monstruoso. Em pequenos povoados e cidadezinhas como a que eu vivia, os judeus não eram simplesmente levados a câmaras de gás, ou fuzilados. Toda a minha família, junto dos demais habitantes de nossa pacata cidade, foram levados para o leste da Alemanha, bem ao leste. Onde tudo era cinza, silencioso. Mesmo sendo uma mera criancinha, o medo de estar lá já me dava a certeza de que tudo ficaria pior.
Nos prenderam em galpões, separaram-nos por sexo e idade, despiram-nos e fizeram o que bem entenderam, alegando ser pelo bem do avanço científico. Hoje os testes que fazem com macacos e ratos, de fato, já foram feitos, em meus ancestrais e em mim também.
Rasparam nossas cabeças e arrancaram dentes e unhas de cada homem, mulher ou criança. Injetaram uma variedade de materiais em nós, para depois ver o que aconteceria, nos faziam inalar gases, cortavam partes de nossos corpos e tentavam trocar com partes de outros, hora eramos bonecos, hora eramos peças de bonecos. Analisando bem, passar por tudo aquilo e perder apenas uma mão foi pouco. Antes do primeiro ano, quase metade de nós já havia morrido, e isso incluía minha mãe e irmã caçula. Só quando começaram a chegar novos presos que tivemos um pouco de sossego. Os galpões nos abrigaram por longos dez anos, sangue judeu lavou aquele chão quase todos os dias. Não pense que fomos passivos, arquitetamos diversas fugas, mas todos os planos sempre eram frustrados e nossas tentativas só os deixavam mais e mais furiosos.
Perder meu pai foi a gota d'água, ele era minha ponte com a realidade, sempre me acalmava sorrindo, dizendo que tudo aquilo passaria uma hora, porque nenhuma dor dura para sempre. Ele me dizia isso mesmo careca, sem dentes e totalmente aleijado. Esperança naquele homem nunca faltou, mas as vezes me pergunto se tudo que me dizia não era apenas para me dar forças. Sabe o quanto doeu ter que perdê-lo? E também a minha mãe, ela era... Ela era tudo que uma mãe deveria ser, seus olhos vermelhos no dia em que se foi, ainda assombram meus sonhos mesmo hoje. Não pude fazer nada por nenhum deles, por que não morri também? Por que só eu... Dor, dor é tudo que sinto.
Perto do décimo ano de cárcere, os guardas e médicos começaram a se agitar com a possibilidade daquele lugar ter de ser fechado. Algo sobre o exército soviético era falado, nunca entendi bem, mas de uma hora para outra, todos nós estávamos sendo jogados aos montes em caminhões, sem rumo certo, era uma fuga...
Fui no último comboio, sem ter exatamente onde me segurar, estava quase caindo antes mesmo de sairmos do lugar. Os presos que se recusaram a entrar foram metralhados, a essa altura, eu era apenas um órfão desdentado e sem uma mão, completamente sem perspectivas de futuro. O motorista acelerava o máximo que podia, sem sustento o suficiente, e nem forças, acabei por cair e me encaixar entre os outros. Fora a alta velocidade, tudo estava normal, até ouvirmos o primeiro tiro, logo, várias rajadas foram disparados de todas as direções. Nosso comboio foi pego em uma emboscada, balas rasgavam o veículo como um abridor faz com uma lata, eu mesmo fui baleado duas vezes. Saímos da estrada, capotamos, uma, duas, três, quatro vezes até que, por fim, paramos...
Destroços e corpos me rodeavam, e com o resto de forças que tinha, fui serpenteando para fora do veículo. Por entre as folhas secas do chão, meu corpo se arrastou, até o mais longe que pode, falo dessa forma por que agi quase inconscientemente. Quando não consegui mais me mexer parei, respirei fundo, e sentindo o gosto do meu próprio sangue na boca, olhei para trás... Tudo estava escurecendo, e meus olhos estavam fechando sozinhos. Dormi... Morri? Não, não tive essa sorte.
Na manhã seguinte acordei em uma casa, rodeado de crianças sujas e magras, uma senhora velhinha estava cuidando de mim, e ela fez isso por muitos anos. Aqueles estranhos passaram a ser o mais próximo de uma família que eu tive depois de perder a minha. As marcas da guerra continuaram em mim, toda a dor que senti nunca passou, os machucados nunca sararam, os traumas nunca sumiram. Agradeço aquela mulher por ter tirado comida da boca de seus filhos para me dar, mas ela nunca ocuparia o lugar de minha mãe. Não podia passar mais tempo com eles, foi mais cômodo para ambas as partes que partisse de lá. Quando a guerra cessou até o último tiro, ela me deixou perto de um asilo, e de fato era lá o meu lugar, pois, mesmo jovem, já estava parcialmente cego, e todo o meu corpo tremia.
Foi neste asilo que aprendi a ler e a escrever e é nele que estou até agora. Preso eternamente a uma cadeira de rodas, o tempo parece ter passado bem mais devagar. Não sei o que é sonhar com algo bom há mais de sessenta anos, quando durmo só ouço lamentações e tristeza, elas estão cravadas na minha mente, no meu ser. Nunca fui útil a ninguém, não me apaixonei, não me casei, não tive filhos. Sou o único sobrevivente daqueles anos no inferno e não vi justiça sendo feita, ou alguém me procurando ao menos para saber o que houve.
Sabe quanto as epifanias de que falei antes? Elas são verdades absolutas, compreensões perfeitas do que está acontecendo, como peças que faltam numa busca pelo conhecimento, pela razão das coisas. Enquanto escrevia essa carta acabei tendo mais uma, esta, resume toda a minha vida desde o dia em que tudo foi tirado de mim, até hoje.
Eu não sobrevivi de fato, apenas esqueci de morrer.
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