The Child in the shadow

 The Child in the shadow


Eu fiquei sabendo a pouco tempo atrás que existem pessoas que veneram a guerra, e que essas pessoas acreditam fielmente na existência de um motivo e um propósito bom por trás dela, que os fins justificam os meios. Mas, essas pessoas, geralmente, não estão no meio do fogo cruzado. Bem, eu e minha família estivemos sim, e nós podemos afirmar que nada justifica um homem atacar e matar um outro homem, ou pelo bem maior do país, ou ideologia. As vidas são derramadas nos campos de batalha, o chão fica tão vermelho quanto os tons do céu quando o sol está se pondo. A guerra é uma realidade local bem difícil, bem por isso nosso pai escondia uma pequena arma na gaveta do meio no armário da cozinha, estrategicamente posicionada perto da porta de trás da casa,  mas nunca cogitamos a ideia de que isso seria realmente necessário.

Minha memória é muito clara do momento que o míssil desceu rasgando o céu em um barulho ensurdecedor. Era manhã e eu tinha acordado a pouco tempo, só decidi que não queria sair da cama. Meu pai sempre fazia questão de ir até nosso quarto, acordar Sunir e ver meu show de drama para não ir a escola. Naquela manhã, Lídia foi quem veio bater em nossa porta, abrir e nos mandar levantar com o tom autoritário de sempre, ela se fazia de irmã mais velha valentona, mas no fim, sempre cedia a nossas manhas. Meu pai brincava, quando ouvíamos rojões nas ruas, ele dizia que parecia o som de gatos sendo jogados para cima, mas nenhum gato era tão grande a ponto de emitir um som tão alto.

Não ouvi quando caiu, não sei onde caiu, sei apenas que acordei já de noite com telhas e pedaços de madeira sobre minha cama. Escombros cobriam meu corpo, fuligem confundia-se com o próprio ar que eu respirava. Entre os restos de nossa casa, só sentia vivo o corpo de Lídia junto ao meu, abraçando-me forte enquanto chorava em desespero. Acordei aos sons de seus berros por Sunir. Não havia fogo na casa, as cinzas voavam pelo lado de fora. O que pareceram horas, até ouvirmos o choro de nosso irmão, na verdade não passavam de segundos. Ele estava do outro lado do quarto, não conseguimos vê-lo entre as toras, telhas e pedras, mas sabíamos que estava lá, e era o suficiente.

Tivemos de esperar até a manhã seguinte, quando finalmente os tiros pararam, só então pudemos retirar o entulhos que conseguimos, foi o suficiente para que ele pudesse sair de baixo de sua cama. Fomos de mãos dadas pelas escadas, no silêncio mais profundo possível, mas já estávamos sem esperanças de encontrar nossos pais com vida. Lídia não chorou enquanto esforçava-se para colocar pedras sobre os corpos. Eu não chorei enquanto ajudava-a, levando areia para colocar sobre as pedras. Sunir não chorou enquanto olhava para a parede, ele só tremia.

Antes de suas conclusões precipitadas, corremos pelos arredores da cidade procurando ajuda por dois dias, antes de decidirmos sepultar nossos pais, juntos, no quarto deles. A vida real não é como nos filmes americanos que nosso pai assistia, onde alguém sempre aparece para ajudar os sobreviventes. Nós esperamos famintos por dias, comendo o que ainda existia  em nossa dispensa, mas sem água era impossível comer os grãos cozidos. Alimentamo-nos de grãos secos até nossa caixa d’água secar completamente, não nos banhamos para economizar cada gota de água. Sujos, com sede e com fome, fomos as ruas, deixando Sunir em casa, para procuramos nas ruínas de nossa cidade, qualquer coisa que pudesse nos manter vivos por mais tempo. Eu não ouvi mais nenhuma palavra dentro de casa desde que chegamos, após termos revirado corpos, roubado dos mortos para podermos sobreviver.

Vi minha irmã sujando-se de sangue podre para arrancar dos bolsos de um defunto uma pequena barra de chocolate. Ela limpou-a, várias e várias vezes, muito mais que o necessário, e depois de 3 meses, deu seu primeiro sorriso ao entregá-la a Sunir, que comeu ferozmente, mas tão grato quanto podia demonstrar. Fizemos um pequeno banquete, com lanches, enlatados e água velha. Não havia mais gás para podermos cozinhar, então tudo foi consumido cru, tal qual era nossa própria realidade no momento. Eles encheram-se de esperança aquela noite, dormindo de barriga cheia, eu, sentei-me à mesa, exatamente onde estou agora. Algo me disse para não sair daquele local durante a noite. Enquanto adormeciam, aproveitei do pouco de luz do lampião que encontramos em nossa expedição a cidade dos mortos, para retomar a um hábito meu, escrever. Não que tenha pretensão de emocionar você que está lendo, é muito mais pelo ócio. Então, munido de papel e caneta, decidi narrar, o quanto dava, de nossa história.

Ao amanhecer da noite do “banquete”, fomos surpreendidos por novas rajadas de tiros, tais como as que nos fizeram esperar em nossas camas, no dia da morte de nossos pais. Não tive reflexo de abaixar depois que vi a poeira e o zumbido dos tiros atravessar a sala na exata direção que Lídia estava sentada, com Sunir em seus braços. O sol já se pôs desde então, e eles continuam lá, exatamente parados. Apenas metade de seu rosto consegue ser iluminado pela luz fraca sobre a mesa, todo o resto, incluindo o cadáver de meu irmão, baleado no rosto, está imerso nas sombras. Ela não se mexe, ela nem pisca, só presumo estar viva pelas lágrimas que não pararam de escorrer por suas bochechas magras desde a manhã. Seus olhos vermelhos encaram fixamente a gaveta do meio no armário da cozinha, e agora eu estou com muito medo do que ela vai fazer, quando finalmente decidir levantar do sofá.

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